Um de meus trabalhos para a faculdade e que me deixou extremamente feliz pela genialidade que pude demonstrar ao juntar minhas idéias..
Não raramente, nos deparamos em nosso cotidiano com situações inusitadas, como quando você está num restaurante comendo tranqüilamente, e de repente o garçom desajeitado acaba por derrubar em sua roupa as taças de vinho que levava em sua bandeja. Se você é uma pessoa normal, não-psicótica, e com seus conflitos em ordem, dirá provavelmente esta frase ao garçom, entre outras: “Você está louco? Como pôde fazer isso?”. E o garçom pedirá desculpas a você, que provavelmente não irá ouvir as desculpas por estar perdido em xingamentos...
Isso provavelmente já aconteceu com você, seja você o garçom ou o cliente. Porém provavelmente você não parou para pensar em uma coisa... Por que você chamou o garçom de louco? E por que a maioria das pessoas chamam as outras pessoas de loucas quase todos os dias? Somos todos loucos?
Não, não estou sendo detalhista ao extremo. Acredito que as coisas se tornam superficiais quando são profundas demais para serem compreendidas completamente. Portanto, talvez esta corriqueira frase do cotidiano de quase todas as pessoas, inclusive nós psicólogos, diga algo mais profundo do que aparenta. Meu objetivo aqui é o de utilizar este pequeno exemplo para explicar a relação da obra de Machado de Assis com a atualidade, de um ponto de vista psicológico. E para entender essa pequena questão que levantei, pretendo partir do pensamento do senso comum, indo em direção ao pensamento científico, com uma pequena “parada” sobre o pensamento de Machado de Assis.
Começando com o senso comum, podemos dizer que fazer a pergunta “você está louco(a)?” freqüentemente é uma “gíria”, algo que dizemos sem “pensar muito” no significado das palavras.
Levando em consideração a visão do senso comum, partimos para o lado científico, ou seja, a psicologia.
O conhecimento científico é algo que se originou no ocidente. Começou com os gregos, que iniciaram o movimento de sobrepor a razão e o pensamento diante dos sentimentos e de certa forma, também do esforço físico. A característica que diferenciava o homem dos outros animais era justamente a condição de ser racional, e aqueles que possuíam pouca capacidade intelectual e de raciocinar eram tratados como escravos, que na época não eram tratados de maneira diferente de um animal.
Essa separação feita pelos gregos, de valorizar o “pensar” e desvalorizar o sentir e o fazer foi crucial para a existência do que hoje conhecemos como ciência, e discorrer como essa relação funciona nos tiraria do nosso objetivo neste trabalho. Como sabemos, o conhecimento científico é livre de sentimentos e emoções e tenta ser o mais neutro possível, atendo-se somente a fatos e hipóteses. Ambos, fatos e hipóteses, excluem todas as capacidades humanas que não sejam o pensamento.
Este é o ponto que precisamos ter em mente. O pensamento e a razão hoje são, por conta destes fatos históricos e sociais, mais valorizados que o sentir e o fazer em nossa sociedade. Afinal, a ciência é tida como “a” verdade, e se opor a este tipo de verdade seria como dizer que a razão não deve ser considerada... e quem não possui razão é louco.
“Você é louco, garçom?”...
Em O Alienista, basicamente tudo o que acontece na primeira parte do conto foi resumido no parágrafo acima. A supremacia do pensamento e do conhecimento vindo dele é capaz de definir se somos loucos ou não. Simão Bacamarte era a razão pura encarnada. E aqueles que não cabiam na classificação de “normal”, acabavam na Casa Verde. Nossa sociedade hoje não é muito diferente da de Itaguaí.
Porém, embora tenhamos elucidado alguns fatores que constituíram a sociedade ocidental que conhecemos hoje, devemos nos lembrar que a maioria das pessoas não se dá conta de que a cultura de hoje é resultado de uma confluência de uma série de fatores. As pessoas veem tudo como natural, como se tudo sempre tivesse existido, desde a cultura até o nosso próprio surgimento. Esse é o pensamento alienado, que faz com que as pessoas chamem as outras de “louco” o tempo todo sem se dar conta do que estão dizendo.
Alienista, alienado, alienante. O primeiro foi um médico, que usou o terceiro, o pensamento, pra formar o segundo.
Simão Bacamarte percebeu, a certa altura dos acontecimentos, que a loucura residia nos extremos do ser humano. O sempre bondoso e o sempre egoísta eram igualmente loucos. O moralista e o perverso, o sempre calmo e o sempre agressivo... Era necessário que ambos conhecessem um pouco do extremo oposto para que chegassem a um estado saudável...
Ora, Simão bacamarte promovia uma critica à sociedade atual alienada. Em outras palavras, e de uma maneira “artística”, o alienista criticou os alienados. Loucos são os que se desfazem do equilíbrio das capacidades humanas para favorecer uma em especial. Os que pensam demais hoje estão fora da Casa Verde. Os que não são assim, que se deixam levar por sentimentos e não favorecem nenhuma capacidade humana de maneira diferente, como os apaixonados, por exemplo, são loucos. Paixão é o estado mais próximo da loucura que o ser humano atinge sem enlouquecer, dizia Freud. Simão Bacamarte internaria o pai da Psicanálise sem pestanejar...
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Afinal, o que o garçom que derrubou o vinho em alguém tem a ver com tudo isso?
Ele foi chamado de louco, e por isso, entrou neste assunto. Pensemos juntos:
- Ele foi chamado de louco por ter errado, e errou por falta de atenção.
-Você perguntou, como reação, se ele é louco. Você é o alienado.
- Falta de atenção = falta de concentração do pensamento na tarefa = falta de pensamento = falta de razão.
- Numa sociedade na qual a ciência dita as regras do mundo em que vivemos, e numa sociedade na qual quem não pensa demais não existe como pessoa “normal”, a razão, com a sua categorização e previsão de eventos conhecidos, “governa” os relacionamentos humanos. A ciência é o alienante.
O garçom agiu de maneira inesperada, não prevista, não controlada. Desorganiza o outro, que estando desorganizado, pergunta: “Você é louco?”, querendo, na verdade, perguntar: “Você não sabe que você deve agir normalmente, de maneira que todos saibam como você irá agir, que todos tenham isso sob controle? Você não é normal? Você é louco?”. Mas só se pergunta a última coisa. Essa é a alienação.
As coisas se tornam superficiais quando são profundas demais para serem compreendidas completamente. “Superficial = alienado”.
Esse exemplo serve para mostrar o estilo de vida de nossa sociedade. Extremista. O pensamento é supremo, e a ausência dele é a loucura. O pensamento e a loucura são características exclusivas dos seres humanos. Simão Bacamarte diria que ambos os extremos são igualmente loucos, e que apenas o equilíbrio seria saudável. A sociedade deve ir para a Casa verde.
Ora, a Casa Verde não seria o próprio planeta Terra?
Se assim pensarmos, poderíamos dizer que a loucura reside no mundo, e a loucura reside fora dele, no “mundo da lua”, pois são os dois extremos. É necessário que estejamos sempre em equilíbrio com a casa verde e o “mundo da lua”. Assim como a Lua é importante para o equilíbrio do nosso planeta, nosso “mundo da lua” também é importante para o nosso “mundo real”, nossa Casa Verde e seu equilíbrio.
E o alienista se mostra como o mais consciente de todos.

