Nesse final de semana, eu assisti a um live-action muito louco. 'Live-Action' é um filme baseado em um anime, pra quem não sabe. O filme era sobre um guri vindo do interior que tinha o sonho de ser um grande compositor e cantor para poder dar sonhos às pessoas com suas músicas românticas e alegres - e antes que você tente adivinhar, não é de "Dois Filhos de Francisco" que estou falando. Só que ele acaba se tornando o vocalista da principal banda de death metal do Japão, a Detroit Metal City (que é o nome do filme). Death Metal, pra quem não sabe, é uma das vertentes do heavy metal que se distingue pelas letras referentes a temas obscuros, como morte, demônios e coisas do tipo. Parece maluco, e é. Quando a situação se apresenta no filme, eu pensei: "como pode alguém determinar um objetivo na vida e acabar chegando no seu oposto?"
Achei a ideia engraçada, até perceber a minha situação, que vou tentar resumir em poucas linhas.
Sou uma pessoa com dotes físicos nulos, e trabalho em um serviço que demanda esforço físico intenso.
Sou recém-formado em Psicologia, e trabalho com Mecânica.
Me acho alguém independente, mas ainda moro com os meus pais...
Isso só pra começar, porque se eu continuar a descrever mais coisas, vou passar vergonha.
Aí eu me identifiquei na hora com o manolo do filme, né? Queria saber como ele sairia dessa situação pra ver se eu achava alguma inspiração também. Inútil. Filme é filme. No filme dá certo, na vida, você se fode. Você já se imaginou como o astro de um filme baseado na sua vida? Eu já. E você já percebeu que esse filme seria o filme mais sem graça se fosse sobre a sua vida? Eu também já.
Percebi que eu estava jogando minha vida pela janela, perdendo tempo com bobagens e ficando preso num esquema horrível de acordar cedo e dormir cedo sem nem aproveitar o dia fazendo algo de bom. Bom, e depois que eu percebi isso vendo o filme, eu decidi que ia mudar isso. Decidi que ia fazer minha vida valer a pena, mas só depois que eu acabasse de ver o filme!
Após ver o filme, fiquei pensando: o que fazer pra melhorar e ter orgulho de minha vida? Lembrei-me na mesma hora do famoso "eterno retorno" do Nietzsche. Pra quem não sabe - e sim, preciso ficar explicando porque não é todo mundo que é otaku e filósofo ao mesmo tempo - o "eterno retorno" é uma suposição metafísica muito inteligente e intrigante. Vou tentar explicar rapidamente.
Supondo que você é bom de pensamento abstrato, considere comigo o seguinte: Se o Universo teve um começo, que seja o big bang ou qualquer outra ideia que você defenda, é provável que o Universo seja finito, pois logo após a explosão do big bang, o Universo tinha uma determinada extensão, que pode estar aumentando até hoje, mas que ainda tem um limite, sendo então finito.
Consideremos que o Universo é finito. Okay. Agora consideremos que o tempo é infinito. Ele corre, sempre correu e sempre correrá. Sempre houve um antes e sempre haverá um depois, certo? (isso tá ficando muito complicado...)
Pois bem. Se o Universo e toda a matéria é finita, e o tempo é infinito, é provável que, dado o tempo necessário, todas as combinações entre todas as matérias do Universo terão acontecido infinitas vezes. Eu não sei como explicar melhor isso. É como dizer que dois dados podem gerar 36 combinações diferentes. O número de combinações é finito. Então ao jogarmos tais dados por um tempo indeterminado, ou melhor, infinito, todas as combinações ocorrerão infinitas vezes, por mais alta que seja a probabilidade de uma ou outra combinação específica de dados acontecer. O mesmo aconteceria com toda a matéria do Universo, logicamente, em uma escala muito maior do que a das combinações de dados. O que importa é dizer que com o tempo, tudo é possível.
Muito bem, agora chegamos ao ponto G. Se todas as combinações do Universo ocorrerão infinitas vezes, então provavelmente a minha ação de escrever esse texto também já aconteceu infinitas vezes, assim como tudo que eu fiz na minha vida antes disso. E na sua também, pra você não achar que é só com os outros que acontece. Todos os eventos já teriam ocorrido infinitamente, num grande loop universal. Nietzsche quis dizer com isso que poderíamos, se essas afirmações preliminares se confirmarem, viver nossas vidas infinitamente, do mesmo jeito, para sempre. Esse é o eterno retorno. Poderíamos já estar numa segunda edição da nossa vida, ou terceira, ou mesmo a primeira, vai saber. Assim, Nietzsche deu um conselho muito mara, e que tenho prazer em repetir: "viva a sua vida de modo a querer revivê-la infinitas vezes".
Eu acho que 99% das pessoas diriam que não gostariam de reviver a sua vida de novo, sem mudar nada. Imagino que deve ser torturante você se ver fazendo uma merda, sabendo que vai fazer merda, e não poder falar pra você mesmo "OLHA A MERDA QUE VOCÊ VAI FAZER". No entanto, eu me alegro com o oposto, ao imaginar que se eu me dei bem em algum momento, eu vou rever aquilo num replay eterno e vibrar com minhas conquistas. Acho que é disso que ele falava. Acho que tenho que criar mais momentos empolgantes do que momentos "olha a merda" na minha vida.
E tudo isso com um filminho B japonês.
Quando parei pra pensar em como poderia acrescentar momentos dos quais eu teria orgulho de me lembrar no futuro, voltei a rever meus sonhos de adolescente. Eu me achava capaz de conseguir ser alguém famoso, ter muito sucesso, virar referência, nome de matéria na escola, morar na Europa e ter muitos filhos inteligentes com uma guria muito linda e apaixonada por mim. E quando olhei pra minha vida hoje, pouco mais de 5 anos depois...
MEU AMIGOO!
Exceto pela companhia, posso dizer que todo o resto está exatamente o oposto do que eu queria pra mim. Quase deprimi, mas como dizia o grande Chico Xavier, não se pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas sempre se poder parar agora e começar um novo fim. Tá bom, aí eu deprimi.
Decidi, por fim, fazer uma lista de objetivos, e dividir as tarefas necessárias pra atingí-los de um modo que eu tenha que cumprir uma missão por dia. Espero que funcione. A primeira missão é registrar essa minha disposição, que é o que faço aqui.
Pra resumir, e não dizer que a viagem e a reflexão só resultaram em coisas ruins, fiquei feliz de ver que a força de vontade ressurgiu em mim. Mas uma coisa me intrigou: assim como no filme o manolo descobre que mesmo daquele jeito, numa banda de metal, ele dava sonho pras pessoas com a música dele. O oposto do que ele desejava realizou seu maior desejo. Será que minha felicidade está no exato oposto do que eu procuro?
Medinho de pensar. Fui o/